terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Natal Africano

Imagem: Bruno Sersocima/Stock.xchng

Não há pinheiros nem há neve,
Nada do que é convencional,
Nada daquilo que se escreve
Ou que se diz... Mas é Natal.


Que ar abafado! A chuva banha
A terra, morna e vertical.
Plantas da flora mais estranha,
Aves da fauna tropical.

Nem luz, nem cores, nem lembranças
Da hora única e imortal.
Somente o riso das crianças
Que em toda a parte é sempre igual.

Não há pastores nem ovelhas,
Nada do que é tradicional.
As orações, porém, são velhas
E a noite é Noite de Natal.

Cabral do Nascimento

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Quer viver muito? Pergunte-lhes como

Pablo Castro/Stock.xchng

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Um novo estudo sugere que beber moderadamente pode ser uma das chaves para uma vida mais longa, além de reunir outras dicas de algumas das pessoas mais idosas do mundo. Confira algumas das dicas para uma vida mais longa, mais saudável e mais feliz, de acordo com as pessoas que sabem do que estão falando!

Na ilha grega de Ikaria, que tem a maior proporção de pessoas acima de 90 anos em todo o mundo, as pessoas têm um hábito de beber um chá de ervas. A bebida, que é consumida várias vezes por dia, contém uma grande variedade de ervas desidratadas, como hortelã-brava, alecrim, sálvia roxa e asplênio.

Devido ao cenário montanhoso da ilha e à falta de opções de transporte, as pessoas têm que se manter ativas durante toda a vida, fazendo exercícios físicos até depois dos 80 ou 90 anos. A alimentação da ilha contém muito azeite de oliva, frutas e vegetais, além de pouquíssimas quantidades de alimentos processados ou industrializados.

Na ilha japonesa de Okinawa, é comum encontrar velhinhos com mais de 80 anos completamente saudáveis. Pesquisadores acreditam que isso se deve, em parte, à maneira com que a população da ilha se alimenta, raramente comendo demais e geralmente parando a refeição pouco antes de se sentirem saciados. A dieta dos locais se baseia em grãos, peixes e vegetais, e eles costumam ficar longe de carne, ovos e laticínios.

Já na Sardenha, na Itália, existe um enorme número de centenários. Lá, os habitantes têm o costume de beber vinho, que é muito rico em polifenóis e antioxidantes, que ajudam a impedir o envelhecimento. No Vale de Hunza, no Paquistão, as pessoas geralmente vivem mais de 90 anos. Os pesquisadores creditam esta longevidade à dieta de frutas, grãos e vegetais da população do local. Muitos dos alimentos são consumidos crus, e eles comem grandes quantidades de damascos, cerejas, uvas, ameixas e pêssegos.

Na região sul do Equador, no Vilcambamba, muitas pessoas passam dos cem anos de idade com boa saúde. Acredita-se que esta saúde se deve ao consumo da água mineral natural da região, que é completamente livre de impurezas.

Nos Estados Unidos, uma comunidade de Adventistas da Califórnia, tem uma média de vida de cerca de 5 a dez anos mais longa que os outros cidadãos da cidade. Pesquisadores acreditam que isso acontece porque estas pessoas não bebem nem fumam, e seguem uma dieta vegetariana. Além destas dicas reunidas por todo o mundo, outras pesquisas sugerem que a longevidade sempre é ligada a baixos níveis de estresse e ansiedade.

[Telegraph]

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Ecológico também na embalagem

Foto: Lilian Nakashima

Um post sobre os significados "extra-classe" das festas de final de ano renderia muito por aqui (com fé, quem sabe consigo escrevê-lo até o final de dezembro... rs). Mas, por enquanto, passo para deixar uma dica muito charmosa para dar (mais) um toque Eco às comilanças e gastanças do período: uma tradição vinda do japão e encampada com muita propriedade pela amiga Lili, jornalista multimídia e quituteira de mão cheia. Para embalar as delícias que ela prepara neste Natal, importou o Furoshiki, que substitui com vantagens as embalagens de presente tradicionais. Além de muito bonitas, podem ser reaproveitadas depois e se tornarem, elas próprias, expressão de criatividade de quem presenteia.

Além do blog da Lili, linkado aí acima, outras idéias de Furoshiki - e um passo-a-passo de como fazer alguns - podem ser encontrados também aqui. Com isso, junto-me à corrente bloguística mundial em favor da embalagem... e quem sabe até o final do ano aprendo a fazer um bonitinho também. ;)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

E se fosse a sua casa?

video

Rápido e certeiro. :)

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Melhor que comprimido

Willie Cloete/Stock.xchng

Chá de hortelã é eficiente como uma Aspirina, descobrem cientistas

A hortelã-brava já era receitada por curandeiros brasileiros há muito tempo, para curar gripes, dores de cabeça e de estômago e várias outras doenças, mas só agora cientistas passaram a ver os efeitos reais da Hyptis crenata. Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Newcastle, na Inglaterra, provaram cientificamente que a crença na planta estava completamente correta.

Os pesquisadores viajaram ao Brasil para analisar exatamente como a planta é preparada e consumida tradicionalmente. O método mais comum é feito fervendo as folhas secas da planta durante 30 minutos, e esperar que o chá esfrie antes de bebê-lo.

O estudo mostrou que, quando a hortelã é tomada nas doses prescritas pelos curandeiros, ela é tão eficiente para aliviar a dor quanto um medicamento semelhante à aspirina, chamado de indometacina. Os pesquisadores planejam realizar testes clínicos para descobrir a eficácia do chá contra as dores.

Graciela Rocha, que participou do estudo, lembra que as plantas são buscadas como fonte para a cura de doenças desde os primeiros humanos, e que estimativas mostram que mais de 50 mil plantas são usadas em todo o mundo com propósitos medicinais.

Além do uso tradicional, mais da metade dos medicamentos são baseados em moléculas encontradas naturalmente em plantas”, aponta. “O que fizemos foi pegar uma planta que é usada com segurança para tratar a dor e provamos cientificamente que ela funciona tão bem quanto algumas drogas sintéticas”, completa a pesquisadora.

Graciela, que é brasileira e lembra de ter recebido o chá para curar doenças durante a infância, afirma que o próximo passo do estudo é analisar como e por quê a planta funciona. A pesquisadora lembra que a hortelã-brava tem um gosto mais parecido com a sálvia do que com qualquer outra planta da família da hortelã tradicional. “Não é tão bom, realmente, mas medicamentos não precisam ser gostosos, não é mesmo?”, questiona a pesquisadora.

[BBC]

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A palavra

Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.

Que resumiria o mundo
e o substituiria.

Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.

(Drummond)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Feita para os presentes tempos

"Estou só observando e percebendo como existem coisas das quais não preciso para ser feliz."

(Sócrates, ao passear pelo mercado de Atenas)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Uma ilha muito além da fantasia

Tranebjerg, Dinamarca - Na ilha dinamarquesa de Samsø, exemplo excepcional de autossuficiência energética, até o leite de vaca ajuda a reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global. Samsø, com apenas 114 quilômetros quadrados habitados por pouco mais de quatro mil pessoas, fica na Baía de Kattegat, no Mar do Norte, cerca de 120 quilômetros a oeste de Copenhague. Sua merecida reputação se deve ao fato de gerar toda a energia que consome por meio de turbinas eólicas e painéis solares.

Desde que, em 1997, Samsø ganhou uma competição nacional para ser comunidade-protótipo no uso de fontes de energia renováveis, os samsingers – como se chamam seus habitantes – revolucionaram todos os aspectos de sua vida cotidiana para contribuir com a eficiência ambiental. Esta busca é tal que até mesmo a produção de leite de vaca é parte do sistema de aproveitamento energético. No momento da ordenha, o leite tem temperatura de aproximadamente 38 graus e deve ser esfriado imediatamente até três graus. Alguns produtores de Samsø acoplaram ao tanque coletor um mecanismo de transferência de temperatura para impedir que esse calor se dissipe no ar, o que permite usá-lo na calefação de suas casas.

Apesar de toda a engenhosidade, os pecuaristas ainda não encontraram solução para o metano e outros gases de efeito estufa gerados pela digestão bovina. Mas estudam o sistema aplicado em uma fazenda modelo da península de Jutlandia, que recicla os gases e dejetos da criação de porcos, que são usados como fonte de energia e fertilizante para cultivar tomates. Apesar de a transferência de calor do leite de vaca para a calefação doméstica ser um componente marginal do sistema de geração energética da comunidade de Samsø, ela ilustra os esforços da ilha para melhorar seu equilíbrio com a natureza.

A parte principal do sistema são 11 turbinas de vento, que geram uma média de 28 mil megawatts anuais, suficientes para fornecer eletricidade a toda a comunidade, alimentar todo o serviço de transporte coletivo da ilha e inclusive gerar excedente de 10% para vender a outras regiões dinamarquesas. Os benefícios econômicos dessa venda são reinvestidos no sistema local de energia renovável. Isso não significa que os samsingers tenham aposentado os automóveis e outros meios de transporte tradicionais. Por exemplo, as três barcas que fazem a ligação da ilha com terra firme consomem nove mil litros de petróleo por dia. Mesmo assim, Samsø vende mais energia limpa ao continente do que compra na forma de combustíveis fósseis.

A comunidade está disposta a experimentar os veículos elétricos. “As distâncias aqui são muito curtas, inferiores a 50 quilômetros”, disse ao Terramérica Søren Hermansen, diretor da Academia de Energia da ilha e pioneiro da revolução ambiental local. “Se a bateria de um automóvel elétrico pode acumular energia para, digamos, 120 quilômetros, então se converte em um acumulador, que nos permitiria não vender nossa energia limpa e utilizá-la aqui”, afirmou. Os agricultores adaptaram os motores de tratores e outros veículos para que consumam etanol ou outros combustíveis destilados da vegetação nativa, como a colza.

Samsø dispõe também de quatro geradores movidos a combustão de palha, abundante no território. Os geradores são duais: produzem calor e eletricidade, o que ajuda a aumentar sua eficiência. Em muitas casas foram instalados painéis solares, calefação geotérmica e caldeiras alimentadas com biomassa ou madeira tratada para eliminar as emissões de carbono. Ao uso de energia renovável, é acrescentada a vontade dos samsingers de reduzir seu consumo elétrico. Jytte Nauntoft, proprietária de uma loja de aparelhos elétricos em Tranebjerg, a cidade mais importante da ilha, disse ao Terramérica que todas as casas possuem o equipamento necessário para a vida cotidiana, desde refrigeradores e lavadoras até televisores. “Porém, como a eletricidade é muito cara, as pessoas aqui compram os modelos mais básicos e mais eficientes”, explicou.

Este complexo sistema de geração e de ganhos de eficiência fez a ilha deixar de ser totalmente dependente do petróleo e do carvão em 1997, início do experimento, para ser energeticamente autossuficiente em 2003, utilizando apenas recursos renováveis. Desde 2007, tampouco emite gases de efeito estufa. A certificação do balanço energético esteve a cargo da estatal agência dinamarquesa de energia e da consultoria Planenergi, coautoras da avaliação de 2007. Esses êxitos são analisados de acordo com a densidade energética, que mede a quantidade de energia ideal a ser gerada por unidade de área. Para o caso de Samsø, esta densidade deve ser de, pelo menos, dois watts por metro quadrado. “Samsø alcançou esta densidade no final de 2008”, disse Hermansen ao Terramérica.

O sucesso da experiência é tal que a ilha é frequentemente visitada por funcionários de governos estrangeiros, especialistas ambientais, jornalistas e estudantes de todo o mundo. Assim, chegou um grupo de visitantes da Organização Global de Legisladores para o Equilíbrio Ambiental (Globe), que se reuniu, nos dias 24 e 25 do mês passado, em Copenhague, para reforçar o impulso político a um tratado climático que se espera seja alcançado em dezembro, também na capital da Dinamarca. Do encontro da Globe participaram parlamentares do Grupo dos Oito países mais poderosos (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia) e as nações emergentes Brasil, China, Índia, México, África do Sul, Austrália, Coréia do Sul e a anfitriã Dinamarca.

Hermansen disse ao Terramérica que, em recente visita a Samsø, o embaixador do Egito queixou-se de que a ilha é muito pequena para poder ser um exemplo mundial. “Quatro mil habitantes. Esta ilha representa menos do que três blocos de casas no Cairo”, disse o diplomata, ao que Hermansen respondeu: “O senhor não tem de revolucionar todo o sistema energético egípcio de imediato. Talvez devesse começar por reformar três blocos de casas no Cairo”. Além do sistema energético samginger, Hermansen também transformou o famoso lema ecológico “pensar globalmente, agir localmente”. O que “cada um de nós tem de fazer é pensar em termos ambientais locais e agir localmente. O resto se resolve por sinergia”, ressaltou.

Jörgen Tranberg, um dos produtores que utiliza o calor do leite de suas 150 vacas para aquecer sua casa, desenvolve a idéia de Hermansen. “Cada lugar tem suas particularidades. Como na Noruega há muitas cataratas, os noruegueses geram muita eletricidade com represas. Em Samsø sempre queimamos palha, que é abundante na ilha. Antes, era queimada ao ar livre. Hoje, a queima é feita em caldeiras altamente eficientes”, disse Tranberg ao Terramérica. O produtor considera necessário ver além do preço aparente dos combustíveis. “À primeira vista, os combustíveis mais baratos são petróleo e carvão. Mas ambos têm muitos custos ocultos, não expressos no preço de mercado”, acrescentou.

Um dos fatores que contribuiu para fazer de Samsø um sucesso é a participação dos moradores. Segundo Hermansen, quando o processo teve início, em 1997, ele já estava convencido de suas possibilidades. A chave, falou-se na época, era convencer a comunidade a participar economicamente da revolução. E funcionou. Hoje, os habitantes são proprietários privados das turbinas eólicas, dos painéis solares e do sistema de calefação comunitário de Samsø.

Imagem: Turbinas eólicas no Mar do Norte, vistas da ilha de Samsø (cortesia Academia de Energia de Samsø)

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS).
Fonte: Portal do Meio Ambiente

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Lavô tá novo!

Hoje venho saudar (e indicar) um site especialíssimo criado pela querida amiga Paula, já experiente no mundo blogueiro, sempre com mui inspirados textos e idéias. Trata-se do Lavô tá novo!, nascido a partir de uma iniciativa muito legal que ela teve no ano passado, e que acabou se desdobrando em outros tipos de ações ligadas ao reaproveitamento de materiais (confira a história completa nos primeiros posts do blog).

Ali, além de contar como isso começou, ela dá dicas muito bacanas de como usar melhor as novas e velhas coisas que se acumulam em nossos armários. E, de quebra, intensificar a prática dos 3R na nossa vida diária. :)

Desde já, torna-se parada obrigatória e vai linkado por aqui. Inspirem-se!

domingo, 1 de novembro de 2009

Segue o teu destino

Rodrigo Hudson/Stock.xchng

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
(Ricardo Reis)

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Já desligou a tomada da TV hoje?

A atitude vale para o Brazuca tb... :)

Ação pessoal contra aquecimento é mais eficaz do que imaginado

RIO - Contra as transformações no clima, mudanças caseiras. Um estudo realizado nos Estados Unidos mostrou que pequenas ações individuais - como não deixar aparelhos em modo standby e trocar regularmente os filtros de ar do carro - são mais importantes do que se imaginava. Segundo a pesquisa, a implementação em larga escala de tais atividades, se acompanhada por intensas campanhas de divulgação, poderia ser capaz de reduzir anualmente as emissões domésticas de CO2 nos EUA em mais de 20%, como mostra reportagem de Carlos Albuquerque.

Esse valor faria com que o país - historicamente o maior poluidor do mundo - tivesse uma diminuição total de emissões de aproximadamente 7,4% num período de dez anos. O número é superior às emissões totais de um país como a França. Para os autores do estudo, publicado na revista "Proceedings of the National Academy of Sciences" (PNAS), tais ações poderiam ser adotadas em curto prazo, com a utilização de tecnologias já existentes e sem "reduções no bem-estar individual". Com isso, as autoridades mundiais - que se reúnem em dezembro, em Copenhague, para discutir um novo acordo para substituir o Protocolo de Kioto, válido até 2012 - poderiam ganhar mais tempo para desenvolver políticas de médio e longo prazo para combater o aquecimento global.

Estudo toma EUA como referência

Nos EUA, o uso doméstico de energia respondeu, em 2005, por 38% das emissões de CO2 do país. As emissões totais americanas (20% do total mundial) só são superadas pelas da China (que responde por 22% das emissões globais de CO2). "Nós nos concentramos nos EUA não apenas por serem grandes poluidores, mas também por possuírem conhecimento e potencial para reduzir rapidamente essas emissões", afirmam os autores, que estimam que boa parte desse total de reduções pode ser atingido nos primeiros cinco anos.

No estudo, liderado por Thomas Dietz, do Departamento de Sociologia e Ciências Ambientais da Universidade de Michigan, foram estimados os efeitos de 17 tipos de ações domésticas para reduzir as emissões, "com custo quase zero". Eles consideram também a capacidade de mobilização e adesão da população americana, baseando-se em iniciativas anteriores, como as tomadas no país durante a crise de energia nos anos 70.

(O Globo)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Freecycle

Depois da ausência vergonhosa por aqui, venho dar uma dica de site (de movimento e até de opção de vida para alguns, rs) bem interessante: o Freecycle, que parte da idéia simples de que, se você tem algo em bom estado, que não usa mais e que pretende jogar no lixo, pode haver outra pessoa perto de você que tenha interesse em utilizá-lo e, assim, evitar que os aterros sanitários fiquem inutilmente entupidos com bens ainda aproveitáveis. Tudo que falta, às vezes, é uma ferramenta de comunicação que coloque as duas pessoas em contato. O Freecycle pretende ser essa ferramenta, por meio de um site que reúne informações sobre grupos de troca ao redor do mundo e links para grupos de discussão por e-mail, informando sobre coisas em "oferta" e interessados em recebê-las.

Para participar, basta ter espírito cidadão e saber que, mais do que receber coisas "de graça", você estará também contribuindo - com artigos que talvez fossem para o lixo e, de quebra, com a preservação do planeta. Mais informações sobre como o Freecycle funciona estão aqui (e você pode achar grupos em sua cidade no próprio site do Movimento). :)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Arsenal antigripal

Eucalipto, hortelã, gengibre, camomila. Limão, mel e maçã. Para quem - como eu - anda castigado pelos humores climáticos desta cidade mais geniosa que mulher na TPM (rs...), ou de outras paragens não menos bipolares, segue a diquinha da queridíssima Cláudia, importada diretamente de seu blog pessoal. Boa para se juntar as truques botânicos que coloquei acima, e que dão aquela mão pra combater congestionamentos, tosses, dores de garganta e afins, nessa ordem. E melhoras a todos... rs

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Plante árvores e salve energia usando o Google



Ninguém mais escapa do Google, isso é fato. A parte boa é que agora, a cada clique no "oráculo moderno", é possível contribuir com a preservação do meio ambiente. A onda começou com o lançamento do Blackle, versão "escura" do próprio Google que promete, com a simples mudança de cor da tela, economizar mais de um trilhão e quatrocentos milhões de watts de energia por dia. Agora, chegou a vez do brasileiro eco4planet - que oferece o mesmo sistema de busca do Google original, porém com o diferencial de transformar os cliques dos visitantes em plantio de árvores. Como o Blackle, o novo site também tem as vantagens de descansar os olhos dos usuários e salvar 20% de energia do monitor do computador.

Pesquisas, vantagens e estatísticas das duas iniciativas estão disponíveis nas próprias páginas. Escolha uma delas e deixe fácil nos Favoritos!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Diariamente (revisitado)

Para ansiedade, lavanda
Para o não-respirar, eucalipto
Para dores no ventre, camomila
Para dores de amor, tangerina
Para ganhar colo, água de rosa
Para adoçar a boca, morango
Para dor muscular, hortelã
Para se animar, limão
Para apaixonar, alecrim
Para esquentar, canela
Para purificar, erva doce
Para voar, imaginação

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Ainda a Primavera

Imagens belíssimas para inspirar o final de semana: o "gramado sakura" que floresce em algumas regiões do Japão a cada mês de maio (primavera no país). Sem adjetivos!

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A minha, a sua, a nossa sustentabilidade

Venho aqui dividir a dica quentíssima do novo blog escrito pela jornalista de responsa, e inspiração desde meus tempos de faculdade, querida Regina Scharf. Seu trabalho irretocável é um exemplo de competência jornalística nas áreas ambiental e de sustentabilidade - temperado com um toque humano como poucos profissionais sabem dar. Vale a pena ir correndo conferir o texto de estréia, descrito nas palavras dela:

Estejam convidados a conhecer o De lá prá cá, blog meu e da Flavia Pardini, duas expatriadas escrevendo sobre meio ambiente e sustentabilidade no portal da revista Página 22. Meu primeiro post, Smörgåsbord, é um olhar bem humorado sobre a dureza de se incorporar a consciência ambiental no cotidiano. O endereço é www.pagina22.com.br

Uma boa forma de pensar na parte que nos cabe deste latifúndio. :)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Deusa Primavera

Claudia Meyer/Stock.xchng
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Last but not least, uma homenagem (ou melhor, duas, porque não consegui escolher de qual dos textos gosto mais!) à nova estação que nos visita já há uma semana. Que ela traga cor e poesia aos nossos dias (aqui em SP as plantas devem florescer que é uma beleza, se depender do tanto de chuva que caiu hoje, hehe).
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Para saber mais sobre o belíssimo mito grego da Primavera, que por si só já vale um tratado (ou um poema): história da Deusa Perséfone. Inspiração para enfrentarmos os sucessivos ciclos que a vida nos apresenta, transformando-os, sendo transformados por eles e extraindo de cada um o melhor para os tempos próximos. :)
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Vai alta no céu a lua da Primavera
Penso em ti e dentro de mim estou completo.
Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome, e não sou eu: sou feliz.
Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.
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(Alberto Caieiro)
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A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la.
A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.
Só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.
Mas é certo que a primavera chega.
É certo que a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.
É certo que a vida não se esquece.
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(adaptado de Cecília Meireles)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Das receitinhas da vó

Aga Z/Stock.xchng

Todo mundo sabe pelo menos uma receitinha ou dica que aprendeu por aí e que é tiro e queda pra alguma coisa. Compartilho aqui um desses casos, tirado do inspiradíssimo blog da amiga Paula, e que vem a calhar para esses dias de invernico (não existe veranico? Pois aqui em São Paulo temos variações pra todos os gostos, rs) em que circulamos por aí puxando o nariz e nos encolhendo dentro dos casacos que já estavam guardados no armário.
Aproveitem... e confiram outras ótimas dicas de forno e fogão, temperadas com bons causos, no Órfã da Ofélia!

Chá de alho com limão

:. Fácil – Porção individual

Ingredientes:
2 copos de água
1 limão
2 dentes de alho

Modo de preparo:
- Corte o limão em quatro, com casca e tudo, descasque o alho e leve-os à panela com a água.
- Deixe no fogo até levantar fervura e desligue.
- Tampe a panela até amornar e coe o líquido para beber.

Nota: pode tomar puro, com açúcar ou adoçante.

Historinha…

Ficar gripado é muito chato. A gente se entope de remédios, que atacam o estômago, vive com um lencinho de papel na mão e ainda tem que ter pique para seguir a vida normalmente, trabalhar e fazer compra de supermercado. Nesses dias, é sempre bom tomar suco de laranja, jantar uma sopinha e dormir bastante. Além disso, o último truque que aprendi com minha amiga Betsy foi esse chá de alho com limão. Ela pegou a dica com a diarista dela e testou empiricamente. Semana passada chegou a minha vez e também aprovei. O sabor é meio amargo e tem gosto de alho – afinal, é um “remédio” -, mas compensa, pois no dia seguinte já acordei bem mais animada.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Andar a pé eu vou

Robert Linder/Stock.xchng
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Hoje, 22 de setembro, é o Dia Mundial sem Carro. A data é o ponto alto de uma semana toda dedicada à reflexão - e combate - do uso exagerado dos veículos em áreas urbanas. Causa mais do que necessária não só à sanidade mental de quem mora em grandes centros, como à nossa própria sobrevivência enquanto espécie.
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Exagero? Não, de acordo com dados do Movimento Nossa São Paulo. Segundo materiais da ONG baseados em informações do Laboratório de Poluição Atmosféria Ambiental da USP, a poluição da cidade tira dois anos da expectativa de vida média de cada paulistano. E não adianta achar que somos todos reféns das chaminés das fábricas. Há muito tempo são os veículos os maiores poluidores paulistas - a má qualidade do combustível usado neles é responsável por cerca de 3 mil mortes anuais na cidade. O número de partículas de enxofre por milhão (ppm) aceitável pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) é de 50. O combustível vendido atualmente nas áreas urbanas está na média de 500 ppm e 2000 ppm quando vendido nas estradas.
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Diante desses números, ficará difícil, em pouco tempo, dizer que o transporte coletivo não funciona (o que é verdade em muitos casos), que não se pode abrir mão do conforto e da rapidez de um veículo particular, ou que a cidade não possui ciclovias ou alternativas eficazes aos carros (o que também é verdade). O crescimento da frota de veículos (mais de mil entrando em circulação por dia na cidade) concorre grandemente para antecipar as estatísticas de que SP deve parar - parar, literamente, sem mais possibilidade de locomoção pra lugar nenhum - num prazo entre dez a quinze anos.
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Como contribuir para diminuir o cenário apocalíptico? O mesmo Movimento, durante esse período, publicou uma cartilha com dicas simples (complementadas por algumas outras idéias que coloco também) e que podem ajudar a diminuir a visão do exército de carros atravancando as ruas, cada qual com apenas uma ou duas pessoas:
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- combinar um esquema de caronas com vizinhos ou colegas de trabalho;

- incentivar a empresa a adotar a carona conjunta, ou um sistema de transporte coletivo que tire alguns carros das ruas;

- incentivar as escolas, universidades e centros comerciais a montar esquemas de carona ou adotar bicicletários;

- abdicar da preguiça e optar pela caminhada ou pela bicicleta, caso a proximidade do trabalho permita - ainda que seja apenas por um trecho, complementado pelo transporte público;

- procurar rotas alternativas que possibilitem que o carro fique menos tempo nas ruas;

- buscar alternativas de comércio ou de serviços no próprio bairro, evitando sair com o carro sem necessidade (e, de quebra, incentivando as iniciativas de pequenos empresários ou de empresas familiares também).
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- se estiver em SP, ligar para o Disk Fumaça Preta todas as vezes que vir um veículo operando como arma química em potencial (o site da CETESB também recebe denúncias de veículos que poluem a cidade).
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Nenhuma dessas idéias é nova, porém precisam ser realmente levadas a sério se quisermos estabelecer um mínimo de sustentabilidade dentro das grandes cidades. Outras atitudes, como reivindicar a qualidade das vias alternativas de transporte junto ao poder público, ou educar as crianças a buscar também essas alternativas tanto para ir a compromissos quanto em momentos de lazer, atualmente, passaram do status de opção para o de obrigação.
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É difícil mudar antigos hábitos, mas olhando com atenção, podemos perceber que sempre há coisas na rotina que podem ser adaptadas e melhoradas. E é a mudança e a adaptação aos novos tempos que garantirão nosso bem estar - e nosso direito de sempre respirar fundo.
Mãos à obra, então!
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O problema crônico veicular não é, obviamente, "privilégio" da Grande SP. Veja aqui os movimentos que o Dia sem Carro está originando nas principais cidades do país.
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Mais dados sobre o karma motorizado no estado de SP estão aqui.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Para descontrair



Todas as coisas mais "engraçadinhas" sempre têm a ver com yoga. rs
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Imagens tiradas deste site, cheio de idéias bacanas!

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Escutatória

Gesine Kuhlmann/Stock.xchng

Inspiradíssimo texto do educador e escritor Rubem Alves. Qualquer comentário (de minha parte) é superficial. :)

"Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir.

Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil.

Diz o Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma". Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas - coitadinhas delas - entram e caem num mar de idéias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma". Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg - citado por Murilo Mendes: "Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas". Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não "evangélico"), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais.

Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado". Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou". Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou". E assim vai a reunião.

Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci.

O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em U definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram.

Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: Meus irmãos, vamos cantar o hino... Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.

E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar.

A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem.

No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós - como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou.

A alma é uma catedral submersa.

No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos.

Me veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa - quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio.

Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto."

(Rubem Alves)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Meu pé, meu querido pé

Jana Kollárová/Stock.xchng

Tem gente que adora, outros têm aflição apenas quando se toca neles. Mas todos devem concordar que nossos pés estão entre as partes mais importantes - e mais esquecidas - do corpo humano. Eles é que enfrentam o trabalho duro de nos sustentar do início ao fim da jornada diária. Não é à toa que possuem, entre os membros do corpo humano, algumas das maiores concentrações de glândulas e terminações nervosas. A missão é vasta - desde carregar o corpo, regular a locomoção em todas as suas variações até servir como termômetro para a temperatura e a topografia com as quais lidaremos a cada minuto. Para além de sua função estrutural, a medicina chinesa vê neles também um mapa das principais funções orgânicas do corpo. Massageando e tratando dos pés, é possível alcançar maior harmonia em todo o organismo.

Dá para fazer isso em casa, sem muito esforço, depois de um dia de correria. Seguem algumas dicas para ajudar a acalmar os ânimos. Depois, o famoso escalda-pés da vovó pode ser uma ótima pedida para chamar a boa noite de sono.

- Apóie o pé direito sobre o joelho da perna esquerda e deixe a sola virada para você;
- Espalhe nos pés o óleo ou creme de sua preferência;
- Usando os polegares, massageie a sola do pé, pressionando-a com movimentos circulares. Comece atrás dos dedos e siga em direção ao calcanhar;
Quando terminar de massagear a sola, massageie também todo o peito do pé.
- Em seguida, puxe lentamente os dedos, torcendo suas laterais e mexendo para trás e para frente.

Os movimentos ideias para combater...

- Cansaço - Massageie a sola na região central dos pés
- Estresse - O ideal é massagear os pés por inteiro, já que o estresse não é uma doença e sim um conjunto de sintomas.
- Insônia - Faça massagem em toda a lateral externa dos pés, desde o calcanhar até o quinto dedo. Isso ajudará a se desligar dos pensamentos que não deixam dormir.
- Ansiedade e TPM - Massageie a sola na região central dos pés até chegar aos dedos.

(Com informações tiradas daqui)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Consciência

Fred Fokkelman/Stock.xchng


Para inspirar o final de semana, uma bela reflexão de Jung, traduzida do livro Arquétipos e Inconsciente Coletivo. Que tal desenvolver um novo tipo de olhar sobre a realidade? É ao que ele nos convida. :)

Aproveitem!
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"Mas por quê, você poderia perguntar, seria necessário para o homem na Terra, de uma forma ou de outra, adquirir um nível superior de consciência?
Essa é realmente a questão crucial, e eu não acho que a resposta seja fácil.
Ao invés de uma resposta concreta eu posso apenas fazer uma confissão de fé.
Acredito que alguém, depois de milhões de anos, tinha que perceber que esse mundo maravilhoso de montanhas e oceanos, sóis e luas, galáxias e nebulosas, plantas e animais, existe. Certa vez, num monte nas planícies do Leste da África, observei vastas manadas de animais selvagens pastando em silenciosa imobilidade, tal como haviam feito desde tempos imemoriais, tocados apenas pelo sopro de um mundo primitivo.
Eu me senti então como se fosse o primeiro homem, a primeira criatura, a saber, que tudo isso, é. O mundo inteiro à minha volta estava ainda em seu estado primitivo; ele não sabia que ele era.
E então, naquele exato momento em que me dei conta, o mundo passou a ser.
Toda a Natureza busca esse objetivo e o encontra realizado no homem, mas apenas naquele homem mais altamente desenvolvido e mais plenamente consciente.
Todo avanço, mesmo o menor deles, ao longo desse caminho de realização consciente, acrescenta algo ao mundo."
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(Jung)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Dias de trovão

Há muitas coisas para se dizer a respeito dos últimos e molhados dias em São Paulo e pelo Brasil afora. Mas algumas das que valem a pena estão neste blog aqui:

http://www.apocalipsemotorizado.net/

Bom para ler e pensar - principalmente em alternativas para as quatro rodas (individuais ou coletivas) que nos sustentam todos os dias.

PS - Em breve neste blog, algumas dicas de como se sentir mais confortável no ambiente de trabalho, "muscularmente" falando. Postarei quando o trabalho em si afrouxar um cadinho mais. rs

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Caminhos (duvidosos) para a iluminação

Em véspera de feriadão, eu ia pegar o gancho do trânsito monstruoso lá fora para escrever um texto sobre o Dia do Petróleo, comemorado ontem e que mudaria definitivamente a situação dos ares que respiramos desde então. Mas adio sua publicação, ao lado da elaboração necessária, para um dos dias vindouros. Por hora, deixo alguns momentos de humor enquanto se espera que as artérias da cidade fluam novamente neste fim de tarde. Se é verdade que cada um escolhe sua forma de evolução espiritual/corporal, esse pessoal aqui está tentando chegar lá de uma forma no mínimo original. :)

PS - Crianças, não tentem fazer isso em casa!

PS 2 - Agora descobri o segredo daquelas posições que a gente não consegue fazer de jeito maneira. :))

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Elas mexem o caldeirão

Imagem: Alessandro Paiva//Stock.xchng

O termo "bruxa", por si só, já mereceria um texto inteiro de reflexão e discussão histórica, etimológica, filosófica e outros quetais. Mas, como este blog é voltado para temas mais ou menos específicos, trago hoje um artigo especialíssimo da amiga Pietra, expert no assunto, que nos brinda com conhecimento em diversos encontros e bate-papos internéticos ou não. Aqui, ela fala das Pharmakeia, responsáveis desde tempos imemoriais pela manipulação de substâncias naturais para curar e mudar a vida de suas comunidades. Mais sobre o assunto pode ser conferido no blog de onde este texto foi retirado. Aproveitem!
a
Pharmakeia, Deusa Bruxa
a
Pharmakeia, do grego, a que conhece ervas. Também palavra para bruxa ou feiticeira. Sim, desde a Grécia antiga, aquela que conhece ervas, seus segredos, remédios, venenos e transformações são as chamadas "bruxas". As mulheres sábias, as que tem um olhar mais apurado para o local que habitam, que vivem-junto.

Algumas deidades têm esse nome, pharmakeia. E, geralmente, quando pensamos nisso imediatamente, vamos para Diana, a Reina del'e streghe ou mesmo, Hekat, a Trívia. Seus atributos de senhoras da magia, de trazedoras das mudanças, de conhecedoras dos caminhos e do mundo selvagem, além de uma ampla iconografia e associações com a Lua, fazem com que Diana e a Trívia sejam "top of mind" quando pensamos nas pharmakeia.

Mas outras Deusas são assim... Circe é uma. A Deusa dos Cachos Claros. Filha de Hélios e Perseis. Circe se faz muito presente na vida de Odisseus, que chega à ilha de Circe e tem sua tripulação transformada em porcos; transformação que não se dá por um passe de mágicka, mas sim, por drogas, por poções. Circe, a que ajuda Medea a se casar com Jasão e é visitada na Itália. Na Velha Bota ainda, Circe é conhecida como mãe do deus Faunus, por Poseidon.

Outra é a irmã de Circe, Pasifae. A que Brilha em Tudo. A esposa do rei Minos, mãe do minotauro, Asterion. Pasifae também mãe de Ariadne, a senhora do labirinto, e de Fedra. Pasifae, conhecedora das ervas, chegou a amaldiçoar Minos por suas amantes fora do casamento, fazendo que ele ejaculasse escorpiões quando se deitasse com outra que não ela.

O que eu acho muito interessante nessa coisa toda é que Pasifae é a lua cretense... Circe é uma senhora de uma ilha que trabalha com ervas e drogas e se coloca na posição de conselheira ou de interventora.

Sim, as pharmakeia são como as streghe. Talvez sejamos nós como representações físicas dessas Senhoras Antigas, das Senhoras da Sabedoria da Natureza.
a
(Pietra Di Chiaro Luna)

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Comunidade alemã decide ter uma vida sem automóveis e vira referência

Elisabeth Rosenthal
Em Vauban (Alemanha)

Os moradores desta comunidade afluente são pioneiros suburbanos. Eles superaram a maioria das mães que levam os filhos para jogar futebol ou executivos que fazem todos os dias o trajeto dos subúrbios até o centro da cidade: essas pessoas abriram mão dos seus carros.

Estacionamentos de rua, driveways (pequena estrada que vai geralmente da entrada da garagem até a rua) e garagens são, em geral, proibidas neste novo distrito experimental na periferia de Freiburg, perto da fronteira com a Suíça.

Nas ruas de Vauban os carros estão totalmente ausentes - com exceção da rua principal, por onde passa o bonde para o centro de Freiburg, e de umas poucas ruas na zona limítrofe da comunidade. A propriedade de automóveis é permitida, mas só há dois locais para estacionamento - grandes garagens localizadas no limite da comunidade, onde os proprietários compram uma vaga, por US$ 40 mil, juntamente com uma casa.

Como resultado, 70% das famílias de Vauban não têm automóveis, e 57% venderam o carro para se mudarem para cá.

"Quando eu tinha carro, estava sempre tensa. Desta forma sou muito mais feliz", afirma Heidrun Walter, profissional de mídia e mãe de dois filhos, enquanto caminha pelas ruas cercadas de verde, onde o ruído das bicicletas e a conversa das crianças que passeiam abafam o barulho ocasional de um motor distante.

Vauban, que foi concluída em 2006, é um exemplo de uma tendência crescente na Europa, nos Estados Unidos e em outros locais. Trata-se da separação entre a vida suburbana e a utilização de automóveis, como parte integrante de um movimento chamado de "planejamento inteligente".

Os automóveis são um fator de coesão dos subúrbios, onde as famílias de classe média de Chicago a Xangai costumam construir as suas residências. E, isso, segundo os especialistas, consiste em um grande obstáculo para os atuais esforços no sentido de reduzir drasticamente as emissões de gases causadores do efeito estufa que saem pelos canos de descarga, com o objetivo de reduzir o aquecimento global. Os carros de passageiros são responsáveis por 12% das emissões de gases causadores do efeito estufa na Europa - uma proporção que só está aumentando, segundo a Agência Ambiental Europeia -, e por até 50% em algumas áreas dos Estados Unidos.

Embora nas duas últimas décadas tenha havido tentativas de tornar as cidades mais densas e mais propícias para as caminhadas, os planejadores urbanos estão levando agora esse conceito para os subúrbios e concentrando-se especificamente em benefícios ambientais como a redução de emissões. Vauban, que tem 5,500 habitantes e uma área aproximada de 2,6 quilômetros quadrados, pode ser a experiência mais avançada em vida suburbana com baixa utilização de automóveis. Mas os seus preceitos básicos estão sendo adotados em todo o mundo em tentativas de tornar os subúrbios mais compactos e mais acessíveis ao transporte público, com menos espaço para estacionamento. Segundo essa nova abordagem, os estabelecimentos comerciais situam-se ao longo de calçadões, ou em uma rua principal, e não em shopping centers à beira de uma auto-estrada distante.

"Todo o nosso desenvolvimento desde a Segunda Guerra Mundial esteve concentrado no automóvel, e isso terá que mudar", afirma David Goldberg, funcionário da Transportation for America, uma coalizão de centenas de grupos nos Estados Unidos - incluindo instituições ambientais, prefeituras e a Associação Americana de Aposentados - que estão promovendo novas comunidades que sejam menos dependentes dos carros. Goldberg acrescenta: "A quantidade de tempo que se passa ao volante de um carro é tão importante quanto possuir um automóvel híbrido".

Levittown e Scarsdale, subúrbios de Nova York com casas de áreas enormes e garagens privadas, eram os bairros dos sonhos na década de 1950, e ainda atraem muita gente. Mas alguns novos subúrbios podem muito bem lembrar mais Vauban, não só nos países desenvolvidos, mas também no mundo subdesenvolvido, onde as emissões da frota cada vez maior de carros particulares da crescente classe média estão sufocando as cidades.

Nos Estados Unidos, a Agência de Proteção Ambiental está promovendo as "comunidades com número reduzido de carros", e os legisladores estão começando a agir, apesar de que com cautela. Muitos especialistas acreditam que o transporte público que atende aos subúrbios desempenhará um papel bem maior em uma nova lei federal de transporte aprovada neste ano, afirma Goldberg. Nas legislações anteriores, 80% das apropriações destinavam-se, por lei, a auto-estradas, e apenas 20% a outras formas de transporte.

Na Califórnia, a Associação de Planejamento da Área de Hayward está desenvolvendo uma comunidade semelhante a Vauban chamada Quarry Village, nos arredores de Oakland. Os seus moradores podem ter acesso sem carro ao sistema de trânsito rápido da Área da Baía e ao campus da Universidade Estadual da Califórnia em Hayward.

Sherman Lewis, professor emérito da universidade e líder da associação, diz que "mal pode esperar para mudar-se" para a comunidade, e espera que Quarry Village possibilite que ele venda um dos dois automóveis da família e, quem sabe, até mesmo os dois. Mas o atual sistema ainda conspira contra o projeto, diz ele, observando que os bancos imobiliários temem uma queda do valor de revenda de casas de meio milhão de dólar que não têm lugar para carros. Além disso, a maior parte das leis de zoneamento urbano dos Estados Unidos ainda exige duas vagas para automóveis por unidade residencial. Quarry Village obteve uma isenção dessa exigência junto às autoridades de Hayward.

Além disso, geralmente não é fácil convencer as pessoas a não terem carros. "Nos Estados Unidos as pessoas são incrivelmente desconfiadas em relação a qualquer ideia de não possuir carros, ou mesmo de ter menos veículos", diz David Ceaser, co-fundador da CarFree City USA, que afirma que nenhum projeto suburbano do tamanho de Vauban banindo os automóveis teve sucesso nos Estados Unidos.

Na Europa, alguns governos estão pensando em escala nacional. Em 2000, o Reino Unido deu início a uma iniciativa ampla no sentido de reformar o planejamento urbano, desencorajando o uso de carros ao exigir que os novos projetos habitacionais fossem acessíveis por transporte público.

"Os módulos urbanos relativos a empregos, compras, lazer e serviços não devem ser projetados e localizados sob a premissa de que o automóvel representará a única forma realista de acesso para a grande maioria das pessoas", afirma o PPG 13, o documento revolucionário de planejamento, lançado pelo governo britânico em 2001. Dezenas de shopping centers, restaurantes de fast-food e complexos residenciais tiveram a licença recusada com base na nova regulamentação britânica.

Na Alemanha, um país que é a pátria da Mercedes-Benz e da Autobahn, a vida em um local onde a presença do automóvel é reduzida, como Vauban, tem o seu próprio clima diferente. A área é longa e relativamente estreita, de forma que o bonde que segue para Freiburg fica a uma distância relativamente curta a pé a partir de todas as casas. Ao contrário do que ocorre em um subúrbio típico, aqui as lojas, restaurantes, bancos e escolas estão mais espalhadas entre as casas. A maioria dos moradores, como Walter, possui carrinhos que são rebocados pelas bicicletas para fazer compras ou levar as crianças para brincar com os amigos.

Para deslocamentos a lojas como a Ikea ou às colinas de esquiação, as famílias compram carros juntas ou usam automóveis arrendados comunitariamente pelo clube de compartilhamento de automóveis de Vauban.

Walter já morou - com carro privado - em Freiburg e nos Estados Unidos. "Se você tiver um carro, a tendência é usá-lo", diz ela. "Algumas pessoas mudam-se para cá, mas vão embora logo - elas sentem saudade do carro estacionado em frente à porta".

Vauban, local em que se situava uma base do exército nazista, ficou ocupada pelo exército francês do final da Segunda Guerra Mundial até a reunificação da Alemanha, duas décadas atrás. Como foi projetada para ser uma base militar, a sua planta nunca previu o uso de carros privados: as "ruas" eram passagens estreitas entre as instalações militares.

Os prédios originais foram demolidos há muito tempo. As elegantes casas enfileiradas que os substituíram são construções de quatro ou cinco andares, projetados de forma a reduzir a perda de calor e maximizar a eficiência energética. Elas possuem madeiras exóticas e varandas elaboradas; casas isoladas das outras são proibidas.

Por temperamento, as pessoas que compram casas em Vauban tendem as ser "porquinhos da índia verdes" - de fato, mais da metade dos moradores vota no Partido Verde alemão. Mesmo assim, muitos afirmam que o que os faz morar aqui é a qualidade de vida.

Henk Schulz, um cientista que em uma tarde do mês passado observava os três filhos pequenos caminhando por Vauban, lembra-se com entusiasmo da primeira vez que comprou um carro. Agora, ele diz que está feliz por criar os filhos longe dos automóveis; ele não tem que se preocupar muito com a segurança deles nas ruas.

Nos últimos anos, Vauban tonou-se um nicho comunitário bem conhecido, apesar de não ter gerado muitas imitações na Alemanha. Mas não se sabe se este conceito funcionará na Califórnia.

Mais de cem candidatos se inscreveram para comprar uma casa na Quarry Village, e Lewis ainda está procurando um investimento de US$ 2 milhões para dar início ao projeto. Mas, caso a ideia não dê certo, a sua proposta alternativa é construir no mesmo local um condomínio no qual o uso do automóvel seja totalmente liberado. Ele se chamaria Village d'Italia.

Tradução: UOL

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Desvios e dilemas da sem-budista urbana

Chá de camomila. Chocolate.
Banho quente. Chopp gelado.
Palavrão. Mantra Ohm.
Massagem. Spray de cânfora.
Meditação. Dormir até mais tarde.
Óleo de hortelã. Café.
Escapar. Alongar.
Ataque de nervos. Relax. :)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Eu não tô fazendo nada, você também...

Imagem: Craig Hauger/Stock.xchng

Recentemente, tive um pequeno problema no computador de casa. Uma queda de energia à toa, que nem chegou a apagar as luzes totalmente, fez com que meu PC "desmaiasse" para não mais retornar, não importando os esforços desta workaholic desesperada. Seguiram-se duas semanas sem máquina em casa e, por consequência, sem a chance de fazer trabalhos extras à noite e sem acesso à internet depois do expediente.
Os primeiros dias foram um tanto caóticos: correria pra fazer tudo no trabalho, inclusive resolver problemas pessoais que tivessem a ver com o computador, ou então idas a cybercafés no horário da janta para resolver pendências ficadas para trás. Amigos solidários chegaram a oferecer notebooks para suprir a ausência do ente querido, digo, do computador pessoal, enquanto o mesmo estivesse na "enfermaria". E uma quase adicta tendo que se adaptar à nova realidade, com os dramas de ficar incomunicável durante um período indeterminado de tempo.

Porém, passados os ajustes iniciais, uma alteração em minha rotina começou a se estabelecer. A primeira coisa foi a definição de prioridades - não dava para ficar pagando cybers todos os dias pra responder a emails não-urgentes. Depois, a incrível percepção de que havia mais tempo para fazer coisas extra-tela. Comecei a fazer compras de supermercado menos corridas, pensando em refeições que agora eu teria mais tempo para preparar. Retomei a leitura de alguns livros. Dei-me o prazer, perdido há tempos, de me esticar no sofá, ligar a televisão e fazer o scandisc mental por uma hora que fosse, menos preocupada com a lista de coisas a fazer do que com o simples prazer de estar ali, curtindo a minha própria casa - um lugar que, na correria do dia a dia, acaba virando mais um QG para comer-dormir-trabalhar do que um lar de fato.

Apesar dos pequenos exageros, não me considero uma viciada em computador ou internet, tampouco uma louca por trabalho. Mas, até pela facilidade que nos oferecem as ferramentas tecnológicas de hoje, achamos que temos a capacidade de assumir um número cada vez maior de pequenas-tarefas-resolvidas-em-cinco-minutos que, no final das contas, acabam nos ocupando todos os dias até tarde da noite, sem que tenhamos tempo de fazer simplesmente mais nada.

E foi pensando nesse "nada", que às vezes é tudo que nos falta para reequilibrar o ânimo, que me lembrei de um movimento internacional dedicado exatamente a essa prática: de fazer nada. Apesar de exótica à primeira vista (as coisas simples e fundamentais, hoje em dia, chegam a parecer exóticas...), penso que lembra muito a prática de alguns tipos de meditação, em que você simplesmente deixa sua mente fluir, sem se focar em nenhum pensamento, antes de iniciar o processo de "esvaziamento" para outros níveis mais avançados de concentração. No fundo, todos tratam de princípio semelhante: passar um tempo consigo mesmo em busca do equilíbrio para, mais tarde, continuar a desempenhar as tarefas e responder às pressões do cotidiano.

Não é apenas se sentando ou se deitando imóvel que se consegue esse estado meditativo. Atividades cotidianas que exijam certo grau de abstração, como tomar banho, caminhar e até lavar louça, podem ser palco para atingir esse estado e cultivá-lo. Para consegui-lo, vale a pena prestar atenção na própria respiração e focar o pensamento, por exemplo, nas sensações que o ambiente provoca - sons, a textura do solo, a água sobre a pele, o vento ou ausência dele, a temperatura do lugar. São exercícios simples que, transformados em rotina, podem ajudar muito a relaxar a mente e aumentar a capacidade de concentração para o trabalho e até mesmo para o descanso e o sono (trazendo ganhos comprovados para a saúde).

Para complementar, 5 ou 10 minutos por dia podem ser preciosos para aquela atividade que se adora fazer, mas não encontra oportunidade há meses: ouvir música, ler um livro, ligar para um amigo, caminhar por algum lugar de que goste, brincar mais com o filho, sobrinho, levar o cachorro pra passear.
A gente costuma encontrar tempo para trabalhos extras e até para grandes e elaboradas diversões, mas não para as "mini-férias" que podem nos revigorar no dia-a-dia. Não vale a pena esperar o computador (ou o cérebro) pifar para abrir uma brecha para si mesmo uma ou duas vezes por semana. :)

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Sacolinha, pra que te quero?

Há alguns meses, estava eu fazendo compras em um supermercado da cidade de São Paulo, quando, ao passar pelo caixa, a atendente me fez a seguinte pergunta:

- Você tem sacola ecológica para levar as compras?

Orgulhosa, respondi "Tenho!" e já saquei minha sacola verde de tecido, dobrada cuidadosamente dentro da bolsa, presente muito útil da amiga . Ao ver meu gesto, a moça olhou fixamente para mim e disse, com expressão séria:

- Você pensa nas tartarugas.

Fiquei olhando para ela, um tanto incrédula com a frase, e ela continuou:

- Sim, porque ninguém pensa nas tartarugas, sabe. Quando eu pergunto para as pessoas se elas têm sacolas retornáveis, elas ficam bravas, dizem que não é prático carregar uma sacola dentro da bolsa. Mas olha só a sua, é muito fashion. Até parece uma tartaruga!

Tento segurar o riso e concordar, enquanto continuo ouvindo o que ela diz, agora em tom de confissão:

- Mas eles não perdem por esperar. Daqui a pouco, vai ser proibido em todo lugar usar sacolas plásticas. Aí todo mundo vai ter que pensar nas tartarugas.

Saí do supermercado rindo sozinha, é claro, e com uma boa história para contar aos amigos. Mas, piadas à parte, o diálogo com a moça, apesar do tom de absurdo, não deixa de mostrar o ligeiro progresso do tema dentro das compras nossas de cada dia. Quando decidi adotar o uso das sacolas ecológicas - uma prática que também requereu esforço pessoal e revisão de hábitos cotidianos, geralmente os mais difíceis de modificar - me lembro do olhar de espanto dos caixas e empacotadores dos supermercados, diante da minha mão estendida pedindo para pararem a operação já começada, automaticamente, de colocar minhas compras em milhares de saquinhos plásticos. Era um exercício de disciplina e até de desinibição da minha parte, estendendo uma enorme sacola de pano para fazer, por minha conta, o serviço deles e de suas mãos rápidas, geralmente diante de uma fila de pessoas esperando minha performance para poder também usar aquele espaço do balcão.

Agora, já é mais comum ver algumas grandes redes de supermercados fazendo campanha pelas sacolas retornáveis - enquanto colocam à venda também suas próprias sacolas de pano. E, em junho último, o Ministério do Meio Ambiente lançou uma campanha para redução do uso de sacolas plásticas pelo consumidor (um primeiro passo no sentido de concretizar a profecia da minha amiga caixa sobre a proibição total, talvez?).

Mas, para muita gente, é difícil abolir o uso total das sacolinhas, não só pela comodidade, mas porque elas têm uma utilidade muito prática dentro de seus lares. Substituir os sacos de lixo, por exemplo. Esse é mais um desafio para a campanha do governo: mudar o comportamento de quem não tem o hábito, ou mesmo renda suficiente, para comprar sacos de lixo. Embora representem um custo a mais, os sacos de lixo oxi-biodegradáveis, que desaparecem da natureza num prazo máximo de 18 meses, oferecem grande vantagem ambiental se comparados aos de supermercado, feitos de polietileno, que demoram cerca de 400 anos para se decompor.

Apesar do aparente "trabalho a mais", abolir os saquinhos é uma medida fundamental para diminuir a imensa bolha plástica que bóia atualmente nos oceanos, alimentada pelo uso atual de 20 vezes mais sacolas plásticas em relação a 50 anos atrás. Uma rápida busca no Google mostra facilmente que não apenas as tartarugas sofrem com esse lixo todo - que entope bueiros, vai parar no estômago dos bichos que morrem asfixiados ou feridos e ajuda a agravar o aquecimento global. Atualmente, chegamos ao estonteante número de mais de 1 milhão de sacos plásticos usados por minuto - quase 1,5 bilhão por dia e mais de 500 bilhões por ano. No Brasil, são usados cerca de 33 milhões por dia ou 12 bilhões por ano, totalizando um consumo familiar médio de 40 quilos de plásticos por ano, ou 66 sacos plásticos mensais por pessoa (de acordo com dados da Funverde).

Dessa montanha de plástico mundial, não chega a 5% o total incinerado ou reciclado. Os mais de 95% restantes estão por aí causando um estrago danado. Nesse sentido, vem em boa hora a campanha pelo uso das antigas sacolas de pano, já usadas de forma muito prática pelas nossas avós em suas idas ao mercado da esquina. Além do lado romântico da coisa, mostra que elas, já naquela época, pensavam nas tartarugas.

Last but not least... para terminar de salvar o mundo, devemos também torcer para que o projeto deste menino entre logo em escala comercial. Isso sim é dar uma mãozona para o planeta. :)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Castor e Pólux

Imagem: Dez Pain/Stock.xchng
Na mitologia antiga, Castor e Pólux eram dois irmãos filhos de Leda, esposa do rei de Esparta. Castor era filho de Tíndaro, marido de Leda, enquanto Pólux havia sido fruto da união de Leda com Zeus - que, encantado com a moça recém-casada, havia se transformado em cisne para ter a chance de se aproximar dela e gerar-lhe um filho. Junto com Castor e Pólux, nasceram também Helena (aquela famosa, pela qual lutariam dois exércitos no futuro) e Clitemnestra, que se tornaria também rainha.

Como filho de Zeus, Pólux era imortal, ao contrário de seu irmão Castor, filho de rei e rainha mortais. Ainda assim, ambos ficaram conhecidos como Dióscuros, ou "filhos de Zeus", devido à sua imensa união fraternal e às grandes habilidades que possuíam - Pólux como lutador, Castor como adestrador de cavalos. De personalidade bem diferente, porém complementar, participariam juntos de algumas das mais importantes aventuras da mitologia - como a Guerra de Tróia, a expulsão de piratas da região do Peloponeso e a recuperação do velocino de ouro.

Foi nessa expedição que a história mudaria. Em um combate com os também gêmeos Idas e Linceu, de quem haviam raptado as noivas, Castor foi vitimado por Idas com um golpe de lança.

Ao ver o irmão morto a seus pés, Pólux se desesperou. Sendo imortal, não podia acompanhar Castor ao reino de Hades, deus do submundo, para onde iam as almas dos mortais. Procurou então o pai, Zeus, oferecendo sua imortalidade em troca da vida do irmão.
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Embora tocado pelo sentimento de união dos dois, Zeus não podia tirar Castor do mundo dos mortos, cujo governo era de absoluta soberania de Hades. Propôs, porém, uma troca: Pólux deveria dividir sua imortalidade com Castor, alternando com ele um dia no Olimpo e um dia no submundo. Assim, eles se encontrariam diariamente no meio do caminho.
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Prontamente Pólux aceitou o acordo. Os dois irmãos, então, passaram a viver e a morrer alternadamente, se revezando entre os dois planos. Para celebrar a união entre eles, Zeus os transformou mais tarde na constelação de Gêmeos, de onde não poderiam ser separados nem pela morte.

Pessoalmente, acho esse mito de uma força impressionante - tanto pela mensagem de união que traz, como pela prova de que há partes de nós que são indivisíveis. Assim como no mito dos gêmeos, dentro de cada um de nós vive uma "contra-parte" que, muitas vezes por meio de desejos ou pensamentos que não compreendemos, ou que são até conflitantes com o que mostramos ao "mundo exterior", também é porção imprescindível e preciosa daquilo que somos. Compreendê-la e caminhar ao lado dela, fazendo com que atue a nosso favor, é um dos grandes desafios desse estágio humano em que estamos.

Da mesma forma, há certas relações que, mais do que convivência ou apoio, são verdadeiros balizadores daquilo que somos ou do que poderemos vir a ser. Através delas, potencializamos nosso melhor e adquirmos auto-crítica para evoluir naquilo que precisamos. E nos tornamos espelho para a evolução de quem nos proporciona esse crescimento também.

Há movimentos que podemos e devemos realizar sozinhos, mas há caminhos que só é possível percorrer tendo mãos ao lado, tendo esteios que nos apóiem para os próximos passos. Dessa forma, misturamos laços e nos tornamos um pouco como Castor e Pólux, como yin e yang, como luz e penumbra - vivendo em um mundo e conhecendo intimamente o mundo do outro, caminhando separadamente mas levando um pingo do outro em nosso próprio ser. Esse é o grande e divino mistério da convivência e compreensão, outro supremo desafio do ser humano - e uma das maiores e mais importantes fontes de evolução também.

Que possamos, dentro de nós mesmos e ao lado dos que amamos, levar com mãos conjuntas o céu e a terra que existem dentro de nós, estabelecendo a ponte pelo amor. E que, como disse o amigo Fernando, possamos, pelo amor, unir o céu à terra e a terra ao céu.

Este texto é uma homenagem a Natália, estrela da terra, e Júlia, estrela do céu, que vieram para nos ensinar, em poucos dias, o conhecimento de uma vida inteira.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Atchim!

Imagem: Sophie/Stock.xchng
Todo inverno é a mesma coisa. A sinfonia de tosses, pigarros e os "não vou chegar perto, estou gripada" na hora de cumprimentar alguém. Esse 2009 trouxe a ingrata novidade da gripe suína para apavorar os ânimos e incluir as máscaras cirúrgicas na moda dos vagões do metrô e das ruas da cidade. Mas, antes mesmo da "novidade", a gripe já é incômodo bem conhecido de nossos dias e entardeceres (aquela horinha boa em que parece que tudo "tranca" nos narizes e gargantas). De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, as doenças respiratórias são responsáveis, por exemplo, por vitimar três vezes mais pessoas que os acidentes de trânsito em todo o mundo. No Brasil, nossa gripezinha comum causou mais de 27 mil internações na rede pública e mais de 700 vítimas fatais - além de um gasto de R$ 18 milhões em tratamentos dos doentes no ano passado. Aqui em São Paulo, já tem gente substituindo o tradicional beijinho no rosto pelo "Namastê" na hora de cumprimentar os outros (é sério).

E quando ela te pega, apesar das precauções, criativas ou não? A sabedoria popular diz que uma gripe bem tratada dura 7 dias; sem tratamento, uma semana. Pode até ser que não se consiga diminuir o tempo de duração, mas há medidas que se pode tomar para tornar o período menos pesado para quem a tem como companheira.

Tá frio, tá quente

A excelente Sonia Hirsch, em seu livro "Atchiiim!", nos dá uma dica interessante: para domar uma gripe, a primeira coisa a fazer é saber se ela é fria ou quente. Uma gripe "fria" faz a pessoa sentir... frio. A gripe "quente", por sua vez, provoca calores, sensação de secura e vem acompanhada de catarro grosso. O tratamento vai pelos opostos: gripe fria, comida quente - que ajudará a aquecer o organismo. É melhor dar preferência às sopinhas e alimentos cozidos do que a vegetais e frutas crus. Na gripe quente, deve-se abusar da água fresca e evitar comer assados ou fritos, preferindo caldos e canja.

Dicas eficazes em ambos os casos: chás de ervas e especiarias quentes; maçã, para "limpar" a garganta; mel, que ajuda a dissolver catarro; e dormir bem!

E a suína?

O grande problema é que ela se parece com uma gripe comum. A diferença, talvez, seja uma febre mais intensa - acima de 39 graus - dores musculares e dores nos pulmões. Esses sintomas, porém, variam de pessoa para pessoa, por isso é importante prestar atenção ao próprio corpo e saber o que seria, para ele, um comportamento fora dos padrões. Os sintomas "clássicos", como coriza e tosse, podem ser até mais leves do que os do resfriado comum. Porém, a evolução da doença é rápida e pode causar complicações sérias se não for rapidamente combatida.

Em todos os casos, vale o conselho: quem está doente deve procurar um médico. As medidas caseiras e tratamentos alternativos, como em qualquer doença, servem para trazer bem-estar, para ajudar a evitar que o quadro se torne mais agudo ou para prevenção quando a pessoa está saudável. Mas ao sinal de complicações, a parada obrigatória é no consultório ou no pronto-socorro.

domingo, 16 de agosto de 2009

O que é Tarot?

Imagem: Morrhigan/Stock.xchng

Eu tinha decidido esperar um pouco antes de abordar esse assunto por aqui. Isso porque o blog é novo, muitos visitantes (ou a maioria) não me conhece pessoalmente e, talvez em igual número, muitos não tenham familiaridade com o tema. Então, antes de chamar gente de responsa para falar sobre o assunto (já tenho uma pretensa lista de convidados... hehe), tinha preferido abordar temas mais, digamos, "físicos" nesse início de trabalho. O que é palpável, normalmente, é mais fácil de entender, provar e experimentar. E, além de grandemente importante, menos sujeito a controvérsias quando se começa a conversar com alguém. :)

Mas o convite/desafio da amiga Cláudia, no excelente (e parada obrigatória) Via Tarot, me fez inverter a ordem, para também participar da reflexão que ela lançou a partir da dúvida de uma visitante (exatamente a pergunta que dá nome a este post). Achei que a resposta seria grande demais para um comentário por lá, então decidi usar este espaço aqui para também expor algumas idéias a respeito. Afinal, o conceito de bem-estar engloba tudo - corporal, mental e espiritual, e há quem diga (e prove) que esses dois últimos são os principais responsáveis pelo que acontece com o primeiro.

Estudo Tarot há aproximadamente quatro anos, como autodidata. Antes disso, tive contato com essa prática por meio de amigas e amigos queridos. E, até alguns anos antes desse período, tinha inclusive um pouco de pé atrás com as chamadas ciências oraculares - pelo menos as que envolviam de forma tão ostensiva o "acaso", o simples tirar desta ou daquela carta. Parecia-me algo pouco... científico, digamos assim. Diferente, por exemplo, da astrologia, que, para quem a estuda, já oferece um sistema mais lógico e organizado de leitura e interpretação de informações.

No entanto, ao longo do tempo, fui percebendo que existem diversos meios de se trabalhar o lado intuitivo e sensitivo que todos trazemos conosco. Esse é, a meu ver, o grande mérito do Tarot e dos jogos de cartas em geral: trabalhar nosso lado intuitivo, não racional, aquele que não depende de números ou esquemas. Ao soltar as amarras lógicas, abre-se espaço para que o que está oculto na mente apareça.

A origem do Tarot, como de qualquer prática muito antiga, é controversa. Acredita-se que tenha surgido, com a formação atual, na época da Renascença (entre 1400 e 1600), porém há quem situe seu aparecimento durante a Idade Média, com raízes em jogos de cartas já praticados séculos antes por egípcios, chineses, indus e hebraicos. A partir do século XVI, o Tarot de Marselha, base para a maioria dos outros, se estabeleceria com a formatação que conhecemos hoje - 78 cartas, sendo 22 arcanos maiores e 56 arcanos menores (estes correspondendes às cartas de um baralho comum).

Os arcanos (cuja vocáculo significa "mistério"), em especial os maiores, correspondem a arquétipos da nossa própria psiquê, e também àquilo que está acima dela, que pode ser explicado de forma histórica e psicológica como parte do inconsciente coletivo (um dos maiores estudiosos dos conceitos de arquétipo e inconsciente coletivo, inclusive relacionados ao Tarot, foi o "pai" da psicologia analícia, Jung). Dessa forma, dialogando com o resultado de um jogo, consegue-se obter um rico panorama a respeito de sua própria mente e capacidade da fazer associações e reflexões.

Portanto, o Tarot - ao menos para mim - está muito menos ligado a um sistema fechado de "adivinhação", e muito mais à interpretação que se faz de cada informação recebida. Em outras palavras, o que importa na busca de respostas é menos a mensagem em si e mais o receptor - no caso, nosso próprio inconsciente. O Tarot, nesse caso, não seria uma seita, religião, jogo de adivinhação, vaticínio ou substituto da bola de cristal. Seria, entre outras coisas, um canal de abertura para o nosso mundo mental e emocional, por meio de símbolos que nos fazem refletir ou "descobrir" algo que trazemos já no pensamento ou no sentimento, mas sobre o que não havíamos nos detido até então.

Na prática, eu diria que o resultado é fazer pensar e estimular o diálogo interno ou externo. Existe uma máxima que diz que "o Tarô é um bom criado, mas é um mau patrão"; e acredito firmemente nisso. Todo método de autoconhecimento deve trabalhar a nosso favor, deve nos abrir portas para que possamos fortalecer nossa autonomia e livre-arbítrio, e não o contrário. Por isso, desconfio um pouco de interpretações fatalistas ou muito fechadas sobre qualquer assunto, enquanto dou votos de confiança a quem realiza trabalhos de interpretação que favoreçam o diálogo (já vivi conversas incríveis com semi-desconhecidos a partir de um jogo de cartas!), instiguem o pensamento e abram novos caminhos mentais àqueles que já conhecíamos.

Gosto de extender esse pensamento a todo tipo de prática mental ou espiritual, seja ela religiosa, esotérica, psicanalítica, filosófica ou oracular. A história das crenças é, antes de tudo, a história do próprio homem. Olhando para dentro, fica bem mais fácil entender o que se passa fora também. E, no caso do Tarot, talvez esteja provada ainda a via inversa dessa mesma estrada. Nesse caso, o tal "acaso" (embora a cada dia que passe eu acredite menos nessa palavra... rs) dá até uma ajudinha para que a coisa fique ainda mais interessante... afinal, nem só de contas matemáticas vivemos, e muito menos vive o que vai por dentro da gente. :)

Há muitos bons lugares na net para conhecer mais sobre Tarot, mas indico especialmente dois: o site Clube do Tarot, pela clareza e qualidade, e o próprio Via Tarot, escola viva de aprendizado diário (que já virou roda de amigos também!).