segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Sacolinha, pra que te quero?

Há alguns meses, estava eu fazendo compras em um supermercado da cidade de São Paulo, quando, ao passar pelo caixa, a atendente me fez a seguinte pergunta:

- Você tem sacola ecológica para levar as compras?

Orgulhosa, respondi "Tenho!" e já saquei minha sacola verde de tecido, dobrada cuidadosamente dentro da bolsa, presente muito útil da amiga . Ao ver meu gesto, a moça olhou fixamente para mim e disse, com expressão séria:

- Você pensa nas tartarugas.

Fiquei olhando para ela, um tanto incrédula com a frase, e ela continuou:

- Sim, porque ninguém pensa nas tartarugas, sabe. Quando eu pergunto para as pessoas se elas têm sacolas retornáveis, elas ficam bravas, dizem que não é prático carregar uma sacola dentro da bolsa. Mas olha só a sua, é muito fashion. Até parece uma tartaruga!

Tento segurar o riso e concordar, enquanto continuo ouvindo o que ela diz, agora em tom de confissão:

- Mas eles não perdem por esperar. Daqui a pouco, vai ser proibido em todo lugar usar sacolas plásticas. Aí todo mundo vai ter que pensar nas tartarugas.

Saí do supermercado rindo sozinha, é claro, e com uma boa história para contar aos amigos. Mas, piadas à parte, o diálogo com a moça, apesar do tom de absurdo, não deixa de mostrar o ligeiro progresso do tema dentro das compras nossas de cada dia. Quando decidi adotar o uso das sacolas ecológicas - uma prática que também requereu esforço pessoal e revisão de hábitos cotidianos, geralmente os mais difíceis de modificar - me lembro do olhar de espanto dos caixas e empacotadores dos supermercados, diante da minha mão estendida pedindo para pararem a operação já começada, automaticamente, de colocar minhas compras em milhares de saquinhos plásticos. Era um exercício de disciplina e até de desinibição da minha parte, estendendo uma enorme sacola de pano para fazer, por minha conta, o serviço deles e de suas mãos rápidas, geralmente diante de uma fila de pessoas esperando minha performance para poder também usar aquele espaço do balcão.

Agora, já é mais comum ver algumas grandes redes de supermercados fazendo campanha pelas sacolas retornáveis - enquanto colocam à venda também suas próprias sacolas de pano. E, em junho último, o Ministério do Meio Ambiente lançou uma campanha para redução do uso de sacolas plásticas pelo consumidor (um primeiro passo no sentido de concretizar a profecia da minha amiga caixa sobre a proibição total, talvez?).

Mas, para muita gente, é difícil abolir o uso total das sacolinhas, não só pela comodidade, mas porque elas têm uma utilidade muito prática dentro de seus lares. Substituir os sacos de lixo, por exemplo. Esse é mais um desafio para a campanha do governo: mudar o comportamento de quem não tem o hábito, ou mesmo renda suficiente, para comprar sacos de lixo. Embora representem um custo a mais, os sacos de lixo oxi-biodegradáveis, que desaparecem da natureza num prazo máximo de 18 meses, oferecem grande vantagem ambiental se comparados aos de supermercado, feitos de polietileno, que demoram cerca de 400 anos para se decompor.

Apesar do aparente "trabalho a mais", abolir os saquinhos é uma medida fundamental para diminuir a imensa bolha plástica que bóia atualmente nos oceanos, alimentada pelo uso atual de 20 vezes mais sacolas plásticas em relação a 50 anos atrás. Uma rápida busca no Google mostra facilmente que não apenas as tartarugas sofrem com esse lixo todo - que entope bueiros, vai parar no estômago dos bichos que morrem asfixiados ou feridos e ajuda a agravar o aquecimento global. Atualmente, chegamos ao estonteante número de mais de 1 milhão de sacos plásticos usados por minuto - quase 1,5 bilhão por dia e mais de 500 bilhões por ano. No Brasil, são usados cerca de 33 milhões por dia ou 12 bilhões por ano, totalizando um consumo familiar médio de 40 quilos de plásticos por ano, ou 66 sacos plásticos mensais por pessoa (de acordo com dados da Funverde).

Dessa montanha de plástico mundial, não chega a 5% o total incinerado ou reciclado. Os mais de 95% restantes estão por aí causando um estrago danado. Nesse sentido, vem em boa hora a campanha pelo uso das antigas sacolas de pano, já usadas de forma muito prática pelas nossas avós em suas idas ao mercado da esquina. Além do lado romântico da coisa, mostra que elas, já naquela época, pensavam nas tartarugas.

Last but not least... para terminar de salvar o mundo, devemos também torcer para que o projeto deste menino entre logo em escala comercial. Isso sim é dar uma mãozona para o planeta. :)

5 comentários:

1 z e r 0 disse...

muito legal a matéria e o projeto, aí vc vê como são as coisas, lá fora um garoto de 16 anos tem consciência ambiental, aqui uma pessoa adulta ironiza e desdenha falando em preservar as tartarugas (como se fosse menos importante)
bem, a esperança é que esse tipo de pensamento deixe de ser a regra e se torne a exceção... o planeta precisa disso!
paz, luz e amor!!!
om shanti om

Juliana disse...

Oi 1 z e r O,
na verdade, a caixa não ironizou com o comentário... ela estava seriamente preocupada quando conversou comigo aquele dia. Comentou inclusive várias coisas sobre como fazia pra separar as próprias compras em várias sacolas retornáveis diferentes, pra não misturar comida com produtos de limpeza e etc. Ela era mal-compreendida pelos clientes, por isso acabou ficando com essa abordagem meio "guerrilheira"... rs
Mas se todos os funcionários fossem como ela, acho que ajudaria muito na conscientização dos consumidores!
Beijos e obrigada pela visita! :)
Juliana

1 z e r 0 disse...

ah, tá... o erro do analfabeto funcional aqui foi ter achado que ela estava ironizando, ao reler ficou bem mais claro!
com certeza, não adiantaria se apenas os consumidores se conscientizassem, realmente a "ponta" (os responsáveis pelo atendimento), o pessoal da linha de frente precisa se envolver nisso, até para tentar disseminar essa mentalidade!
volta e meia eu passo aqui p/ ver as novidades, estou de olho!
beijos!

Lucas Puntel Carrasco disse...

oi, Ju!
Olha, tenhos umas 3 sacolas fashion retornáveis aqui. Mas lembrar de levá-las ao mercado quando já estou no mercado é que é o problema, viu!
E pior é chegar no caixa e não ter sacolas plásticas para empacotar...
Mas muitas vezes forçam a gente a comprar as retornáveis. Por isso é que tenho 3!
bj,Lucas!

.::.paulinha.::. disse...

Precisa primeiro de educação. Hoje entrou no ônibus uma horda de adolescentes. Começaram a chupar pirulitos e um deles se encarregou de jogar TODAS as embalagens plasticas pela janela!!! e ele estava proximo da janela e ao lado da porta, por coincidencia onde ficam as lixeirinhas dos ônibus... hã? lixeira? o que é isso?
Triste...