Imagem: Morrhigan/Stock.xchngEu tinha decidido esperar um pouco antes de abordar esse assunto por aqui. Isso porque o blog é novo, muitos visitantes (ou a maioria) não me conhece pessoalmente e, talvez em igual número, muitos não tenham familiaridade com o tema. Então, antes de chamar gente de responsa para falar sobre o assunto (já tenho uma pretensa lista de convidados... hehe), tinha preferido abordar temas mais, digamos, "físicos" nesse início de trabalho. O que é palpável, normalmente, é mais fácil de entender, provar e experimentar. E, além de grandemente importante, menos sujeito a controvérsias quando se começa a conversar com alguém. :)
Mas o convite/desafio da amiga Cláudia, no excelente (e parada obrigatória) Via Tarot, me fez inverter a ordem, para também participar da reflexão que ela lançou a partir da dúvida de uma visitante (exatamente a pergunta que dá nome a este post). Achei que a resposta seria grande demais para um comentário por lá, então decidi usar este espaço aqui para também expor algumas idéias a respeito. Afinal, o conceito de bem-estar engloba tudo - corporal, mental e espiritual, e há quem diga (e prove) que esses dois últimos são os principais responsáveis pelo que acontece com o primeiro.
Estudo Tarot há aproximadamente quatro anos, como autodidata. Antes disso, tive contato com essa prática por meio de amigas e amigos queridos. E, até alguns anos antes desse período, tinha inclusive um pouco de pé atrás com as chamadas ciências oraculares - pelo menos as que envolviam de forma tão ostensiva o "acaso", o simples tirar desta ou daquela carta. Parecia-me algo pouco... científico, digamos assim. Diferente, por exemplo, da astrologia, que, para quem a estuda, já oferece um sistema mais lógico e organizado de leitura e interpretação de informações.
No entanto, ao longo do tempo, fui percebendo que existem diversos meios de se trabalhar o lado intuitivo e sensitivo que todos trazemos conosco. Esse é, a meu ver, o grande mérito do Tarot e dos jogos de cartas em geral: trabalhar nosso lado intuitivo, não racional, aquele que não depende de números ou esquemas. Ao soltar as amarras lógicas, abre-se espaço para que o que está oculto na mente apareça.
A origem do Tarot, como de qualquer prática muito antiga, é controversa. Acredita-se que tenha surgido, com a formação atual, na época da Renascença (entre 1400 e 1600), porém há quem situe seu aparecimento durante a Idade Média, com raízes em jogos de cartas já praticados séculos antes por egípcios, chineses, indus e hebraicos. A partir do século XVI, o Tarot de Marselha, base para a maioria dos outros, se estabeleceria com a formatação que conhecemos hoje - 78 cartas, sendo 22 arcanos maiores e 56 arcanos menores (estes correspondendes às cartas de um baralho comum).
Os arcanos (cuja vocáculo significa "mistério"), em especial os maiores, correspondem a arquétipos da nossa própria psiquê, e também àquilo que está acima dela, que pode ser explicado de forma histórica e psicológica como parte do inconsciente coletivo (um dos maiores estudiosos dos conceitos de arquétipo e inconsciente coletivo, inclusive relacionados ao Tarot, foi o "pai" da psicologia analícia, Jung). Dessa forma, dialogando com o resultado de um jogo, consegue-se obter um rico panorama a respeito de sua própria mente e capacidade da fazer associações e reflexões.
Portanto, o Tarot - ao menos para mim - está muito menos ligado a um sistema fechado de "adivinhação", e muito mais à interpretação que se faz de cada informação recebida. Em outras palavras, o que importa na busca de respostas é menos a mensagem em si e mais o receptor - no caso, nosso próprio inconsciente. O Tarot, nesse caso, não seria uma seita, religião, jogo de adivinhação, vaticínio ou substituto da bola de cristal. Seria, entre outras coisas, um canal de abertura para o nosso mundo mental e emocional, por meio de símbolos que nos fazem refletir ou "descobrir" algo que trazemos já no pensamento ou no sentimento, mas sobre o que não havíamos nos detido até então.
Na prática, eu diria que o resultado é fazer pensar e estimular o diálogo interno ou externo. Existe uma máxima que diz que "o Tarô é um bom criado, mas é um mau patrão"; e acredito firmemente nisso. Todo método de autoconhecimento deve trabalhar a nosso favor, deve nos abrir portas para que possamos fortalecer nossa autonomia e livre-arbítrio, e não o contrário. Por isso, desconfio um pouco de interpretações fatalistas ou muito fechadas sobre qualquer assunto, enquanto dou votos de confiança a quem realiza trabalhos de interpretação que favoreçam o diálogo (já vivi conversas incríveis com semi-desconhecidos a partir de um jogo de cartas!), instiguem o pensamento e abram novos caminhos mentais àqueles que já conhecíamos.
Gosto de extender esse pensamento a todo tipo de prática mental ou espiritual, seja ela religiosa, esotérica, psicanalítica, filosófica ou oracular. A história das crenças é, antes de tudo, a história do próprio homem. Olhando para dentro, fica bem mais fácil entender o que se passa fora também. E, no caso do Tarot, talvez esteja provada ainda a via inversa dessa mesma estrada. Nesse caso, o tal "acaso" (embora a cada dia que passe eu acredite menos nessa palavra... rs) dá até uma ajudinha para que a coisa fique ainda mais interessante... afinal, nem só de contas matemáticas vivemos, e muito menos vive o que vai por dentro da gente. :)
Há muitos bons lugares na net para conhecer mais sobre Tarot, mas indico especialmente dois: o site Clube do Tarot, pela clareza e qualidade, e o próprio Via Tarot, escola viva de aprendizado diário (que já virou roda de amigos também!).


